sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O fim do ano e a perpetuação das contradições

Hoje pela primeira vez na minha vida celebrei o Thanksgiving Day, segundo informações, o feriado mais importante dos EUA depois dos Natal. Como nossa chefe é americana, a data é muito importante pra ela e depois de tentar por semanas implantar o espírito de ação de graças no grupo de researchers dos EUA, ela se contentou em celebrar com nosso grupo do Brasil porque ela sabe que no final das contas somos nós que gostamos de uma farra mesmo. Foi super legal, teve frango, purê de batata doce, ervilhas, saladas, torta de maça... Todos levaram alguma coisa pra compartilhar na hora do almoço, a minha parte foi uma torta de salsicha daquelas pa-pum de liquidificador. Não sobrou nem farelo e até incomenda eu tive! hahaha
Foi legal, divertido, gostoso. Entretanto não pude deixar de pensar na farsa que é celebrar o Thanksgiving Day. Os colonos estavam ferrados no início do século XVII, sem saber muito bem o que fazer naquela terra estranha de invernos rigorosíssimos (ainda não entendo esse drama... Os caras vieram da Inglaterra, o pior clima EVER!). Não fossem os índios ensiná-los a preparar a terra, plantar e colher, a colheita do ano de 1621 teria sido tão parca quanto a do ano anterior. O banquete então veio para agradecer a Deus e de certa forma celebrar com os índios os frutos da colheita. Pena que a cena bonita só ficou no quadro porque anos depois os colonos se esqueceram do boa ação e dizimaram os índios sem dó nem piedade. É legal a celebração, vai. Mas porque não aproveitar o momento para refletir um pouco sobre o fato? Fiquei pensando se isso acontece nos EUA.
Aham, Cláudia...
 Aqui nas nossas bandas a marca oficial do fim de ano é o Sinterklaas, outra baboseira que parece não ter fim. Sinto muito, mas um país que se considera tão moderno como a Holanda continuar fazendo esse escarcéu em torno dessa história até hoje é no mínimo vexaminoso. Digo Holanda porque é lá que a coisa acontece com mais intensidade, mas aqui na Bélgica o senhorzinho de chapéu engraçado e barba branca é muito famoso também. Quando eu vi o Sinterklaas com seu fiel escudeiro Zwarte Piet pela primeira vez, nem sabia do que se tratava. Me contaram que era o São Nicolas, um bispo turco que vinha de barco da Espanha trazendo presentes, chocolates e speculoos (um biscoito fedido de canela que todo mundo ama) para as crianças da Bélgica e Holanda. Ele sempre está acompanhado de seu ajudante, o Zwarte Piet (Pedro Preto) que era preto devido ao fato de estar sempre entrando e saindo das chaminés para entregar os presentes. Minha pergunta foi: se ele não é preto porque é preto, porque ele tem os lábios carnudos e vermelhos, usa brinco e roupas coloridas fazendo alusão aos povos árabes, ciganos e africanos? Aliás, se a pele fica suja, porque as roupas continuam limpas (inclusive aquele babado branquíssimo a la Camões)? Pausa para ouvir os grilos do lado de fora... Todos me olhando como se eu fosse uma doida correndo pelada. Só me disseram que eu estava enxergando coisa onde não tinha e que se no passado a história era racista, hoje ela não é mais. Foi o suficiente para eu dar uma pesquisada e tomar conhecimento que o São Nicolas convertia povos norte africanos e turcos, muçulmanos em sua maioria, ao cristianismo e essas pessoas como prova da eterna gratidão continuavam com ele para serví-lo e ajudar nos trabalhos e na conversão de outros povos. Pronto.
Me pergunto como um assunto tão polêmico não passa a agir de forma positiva no debate em países lotados de imigrantes e com o dobro de xenófobos. Por que não explicar para as crianças a história de verdade? Querem celebrar, OK. Em culturas tão carentes de aproximação e momentos em família, acredito que toda oportunidade é valida. Ganhar presente é bom especialmente o chocolate mas manter essa historinha escrota do Zwarte Piet 'zwarte' de fuligem de chaminé é ridículo pra não dizer desrespeitoso. Aqui em casa não vai ter disso não. Quando tivermos nossos filhos eles vão saber desde o começo o lado tenso da história. Sim, porque mantê-los longe de tudo isso é impossível, o Sinterklaas é mais importante que o Papai Noel nas festas de fim de ano.
O que eu queria mesmo era que as pessoas simplesmente esquecessem essas coisas ou que elas nunca tivesse existido, mas uma vez que isso não é possível, vamos tirar o melhor delas. Se eu disser que desejo que os livros do Monteiro Lobato sejam queimados vou estar mentindo. O cara era um racista filho da mãe, mas foi com os livros dele que eu aprendi a gostar de leitura. Será que não da pra deixar a preguiça de pensar e discutir de lado e explorar um pouco os blind points dessas histórias? Nada precisa se perder, mas tudo precisa se transformar.
No caso do Sinterklaas, tranformar o Zwarte Piet num preto de sujeira não elimina o racismo da história, fica a dica. Celebrar o Thanksgiving me lembra que amizade em clima de festa é fácil, difícil é pagar gratidão com respeito. Curti o dia de almoço gostoso, com chefe, colegas, com oração e risadas. Vou dormir esperando o dia de amanhã quando o chicote vai estalar nas nossas costas novamente.

7 comentários:

  1. Nati, sobre Thanksgiving nao sei nada, tenho uma preguiça de tudo relacionado ao US. Sobre o Sinterklaas? Sinceramente o que me aborrece é que eu nao posso montar a arvore de Natal antes do dia 5 de December. Aqui todo ano rola super polemica. Imigrantes polemizandos sobre o assunto dos Piets, olha sinceramente, se formos pensar sobre o lado do racismo e prenconceito envolvendo varias datas das historia, especialmente datas católicas também nao teriamos nada pra comemorar. Tudo tem seu ladinho podre por trás. Eu não curto Sinterklaas, acho sem pé sem cabeça, nao tem criança aqui em casa e não pretendemos ter filhos, entao eu não vou precisas explicar diferenças culturais, historicas pra ninguem (o que já alivia pro meu lado), mas as crianças por aqui piram nos Piets. Querem abraçar, beijar... nao veem por esse lado não. Acho que tem que respeitar também que é uma das maiores tradições dos lados de cá, eu fico quieta e nem falo nada. Pra ouvir: o que vc está fazendo aqui? E e o pior que eles estariam certos.

    Então eu acho que ignorar esse tipo de coisa é o melhor a fazer. Vou lá no Brasil protestar contra a farsa da Republica, do descobrimento, do pobre porquinho que morre pra virar pernil no Natal. Qur maior contradição do que essa? Natal/Pascoa uma epoca de celebrar a compaixão e o amor e o pessoal comete a maior carniceria com os animais? Pra não existe maior contradição do que essa.

    Acho que fugi do assunto.

    beijao

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    1. Oi Simone, eu queria tanto aprender a ignorar, eu me calo (às vezes) pq entendi que da forma que eu fazia antes não criava mais que climão. Mas ignorar nunca consegui.

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  2. nao acho que vc fugiu do assunto não si, concordo com mta do que vc falou, menos da parte que o melhor é ignorar. sei la, minha experiencia como professora me fez aprender que a personalidade se forma cedo e que coisas que parecem pequenas e bobas podem no futuro definir que tipo de adulto vc vai ser. mta gente muda por conta propria é verdade, mas acho que é mais fácil se torcer o pepino de pequeno.
    no brasil teve uma coisa engraçada uns tempos atras, tinha gente querendo tirar o 'deus seja louvado' das notas de real. querem um estado laico mas nao querem abrir mao dos feriados, engraçado isso! rs... que o sinterklaas seja uma tradiçao eu respeito, mas nao acho que temos que ficar calados a nao ser que essa seja a nossa escolha pessoal. estamos aqui pq queremos estar, pq o pais não esta cercado com um muro de concreto e a partir do momento em que trabalhamos, levamos nossa vida sem prejudicar ou desrespeitar ninguem somos livres para dar a nossa opiniao sobre qlqr assunto.
    acho que tem coisas que estao tao enraizadas na gente que parece impossivel mudar, mas so muda se um dia começar. as mesmas crianças que a gente ve beijar os Piets hj poderão ser os adultos que vão votar no Vlaams Belang e no VVD amanha.
    vai ver eu que sou mais brigona tb, sempre que essa data chega eu faço essa reflexão. é que nem piada de preto, gordo, gay... parece besteira, td mundo ri, mas ja esta over ha muito tempo.

    beijos!

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  3. Eu posso falar do Thanksgiving e vou começar pelo que ele siginifica hoje: feriado vespera de black friday. Comer e depois correr pra comprar, mais americano impossível.
    Natália, todo ano eu quero escrever sobre Thanksgiving, mas me seguro pq eu fiz um voto de paz com os grigos kkkk, já estava me tornando desagradável.
    Todos aqui procuram cumprir esse dia: imigrantes, gringos, visitantes. Compram peru e todos os item da ceia, instituições, times de futebol, benificências doam os ingredientes, as pessoas viajam o país pra ver os familiares, sim tudo isso também/ainda existe. O problema é que só dura esse dia, terminando a comida todos voltam aos seus lugares.
    Os irmãos que se odeiam, a solidão, os vizinhos que se escondem pra não topar com os outros.

    Parece que pra compensar inventaram o dia black friday. E aí sim todo mundo se encontra, livre de questionamentos, credo, posicionamento político, vamos comprar TUDO.

    Dos indíginas atualmente sei que têm um dos piores índices de alcoolismo e consumo de drogas das minorias, não tem representante no governo e tão pouco se educam. EStão isolados como sempre estiveram. Já me responderam que é uma opção deles e sabe de uma coisa acho que a pessoa em questão acreditava nisso.

    Eu acho trite e o povo agradece por isso, sei não!!!
    Bj

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    1. Sim, ainda tem esse absurdo da Black Friday, que tb alcançou o brasil agora, tudo pela metade do dobro, dizem! rsrs... o mundo é cheio de contradição mesmo Rosa e eu tenho consciencia de que eu nao vou conseguir mudar tudo, tlz nem a parte que eu desejaria, mas tb nao consigo ignorar. e vc pense aqui na belgica que tb mundo gosta de fingir que nao viu e nao entendeu pra nao entrar em discussao, eu acabo deitando o cabelo, aqui em casa pelo menos! hahahah... mas assim a gente vai, agua mole em pedra dura. acredito que no futuro discutir esses assunstos nao vai causar tanta estranheza, pq a mudança acontece a passos de tartaruga, mas acontece.
      sobre a exclusao da classe indigena, no brasil é a mesma coisa. meu pai é um que tem aquele pensamento de que indio é vagabundo e aproveitador. é a danada da divida historica batendo na porta de novo. do mesmo jeito que ontem eu vi mta gente compartilhando no facebook que o ministro joaquim chegou la sem contas, isso em primeira pessoa, colocando palavras na boca do cara que sempre se disse a favor de cotas. um coitado desinformado que cresceu pensando que veja é o supra suma da intelectualidade eu até entendo dizer isso. Mas vi professores, gente que estudou comigo em universidade federal e viu a realidade elitizada que existe. que nao sejam a maioria td bem, mas uma etnia que representa mais de 50% da populaçao (negros e negros pardos) e nao ocupa nem 5% das vagas nas faculdades, governo, cargos publicos etc? alguma coisa tem. tudo bem nao concordarem com as cotas, mas que apresentem outra solução para solucionar o problema. o que me doi é ver gente batendo o pé que isso é coisa da nossa cabeça qndo a realidade é esfregada nas fuças td dia e so não vê quem nao quer.

      PS: falando em escrever, qual o endereço do seu blog, Rosa? nunca achei!

      beijos!

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    2. Dá trabalho Natalia, dá trabalho ir contra os esteriótipos, mas é o caminho, eu acredito!

      Vc já não é a primeira pessoa a dizer que meu blog é difícil de achar. Faz parte de um série de coisas que estou devendo a mim mesma, afinal mesmo que eu não use como deve ser, eu tenho então vamos cuidar, né?
      o endereço é: cincomundosedoishemisferios.blogspot.com

      Bj

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  4. OI TUDO BEM !!
    OI ADOREI SEU BLOG JÁ ESTOU SEGUINDOSEU BLOG, PODERIA POR GENTILEZA SEGUIR O MEU TAMBÉM , E CLICAR NO G+ . MEU BLOG É :- http://brechodosul.blogspot.com.br , VAI DAR UMA OLHADINHA SERÁ UM PRAZER EM RECEBER .
    OBRIGADA AGUARDO SUA GENTILEZA

    FICO GRATA AO ME SEGUIR , POIS JÁ ESTA SEGUIDA .

    MARCIA REGINA - DESCULPE-ME A LETRA GRANDE MAS SOU DEFICIENTE ESPECIAL

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